08 Julho 2008

Vaticano lamenta decisão da Igreja Anglicana de ordenar mulheres bispos

Ecclesia

O Sínodo da Igreja Anglicana aprovou esta Segunda-feira a ordenação de mulheres bispos, depois de um aceso debate. A decisão foi acolhida com “amargura” pelo Vaticano, considerando que a mesma terá “consequência para o diálogo” entre as duas Igrejas.

O Conselho Pontifício para a promoção da unidade dos cristãos considera que a opção da Comunhão Anglicana é uma ruptura com “a tradição apostólica mantida por todas as Igrejas do primeiro milénio e, por isso, um novo obstáculo para a reconciliação”.

A Conferência de Lambeth rejeitou compromissos com aqueles que não aceitam esta reforma e votou também contra a criação de novas dioceses para os paroquianos que se recusem a aceitar mulheres bispos.

A questão da ordenação episcopal de mulheres ameaça causar um cisma na Igreja com 77 milhões de fiéis em todo o mundo, já dividida pela questão da homossexualidade, depois da ordenação e consagração em 2003 de Gene Robinson, um norte-americano homossexual, como Bispo de New Hampshire (EUA).

28 Março 2008

O horizonte de Chiara Lubich

16.03.2008, Pedro Vaz Patto, Magistrado judicial, no Público

A primeira mulher cristã a expor a sua experiência espiritual a vastos auditórios budistas, muçulmanos e hindus

Em Itália, a notícia encontrou espaço na primeira página do Corrire della Sera e em programação especial da RAI. Terminou a sua vida terrena, aos 88 anos, Chiara Lubich, fundadora do Movimento dos Focolares, um movimento católico que, de forma inovadora, acolhe cristãos de outras denominações, fiéis de outras religiões e pessoas de convicções não religiosas. Presente em 182 nações, conta cerca de 140 mil membros activos e 2 milhões de aderentes.

Toda esta difusão se deve à fidelidade de uma jovem de Trento que, em 1943, num contexto de guerra que evidenciava a caducidade de todos os ideais humanos, descobriu em Deus o ideal da sua vida. Essa descoberta levou-a a reler a uma nova luz o Evangelho. De um modo particular, sentiu-se chamada a actuar o testamento de Jesus, as palavras que Ele pronunciou pouco antes de morrer: "Pai, que todos sejam um, como Tu e Eu somos um."

O que trouxe de novo, à Igreja e à humanidade, a vida de Chiara Lubich? João Paulo II afirmou que via no movimento que fundou uma imagem da Igreja, tal como a delineou o Concílio Vaticano II. Antecipou e, posteriormente, concretizou várias das intuições desse concílio. Desde logo, a revalorização do papel dos leigos e da mulher. Propôs a santidade como uma meta para todos ("a santidade para as massas"), resultado não tanto de um caminho individual, mas de uma experiência comunitária de amor e ajuda recíprocos (uma "santidade colectiva").

A sua proposta de unidade entre as pessoas e as comunidades encontra o seu modelo em Deus uno e trino. A vida da Trindade deixa de ser algo de longínquo e inacessível (o teólogo Karl Rahner chegara até a afirmar que, se fossem abolidos os dogmas trinitários, talvez a vida do comum dos cristãos não se modificasse) e passa a ser um modelo para todos os âmbitos da vida social, onde se harmonizam unidade e distinção, identidade e comunhão.

O "que todos sejam um" foi, pois, o horizonte de Chiara Lubich e do movimento por ela fundado que, também na linha do Vaticano II, se abriu a quatro diálogos: entre católicos, entre cristãos de várias denominações, com fiéis de outras religiões e com pessoas de convicções não religiosas. Lubich foi a primeira mulher cristã a expor a sua experiência espiritual (sem dela nada ocultar) a vastos auditórios budistas, muçulmanos e hindus. Fê-lo em 1981, num templo de Tóquio, a 10.000 pessoas; em 1997, na Tailândia, perante monges e monjas budistas, e, também em 1997, na histórica mesquita "Malcom X" de Harlem, em Nova Iorque.

A espiritualidade da unidade veio reanimar a vida de muitas famílias chamadas a abrir-se à sociedade, para a impregnar dos seus valores característicos, para que ela se torne uma grande família. "Como a família, assim a sociedade", propôs numa ocasião Chiara Lubich.

No Evangelho, ela e os seus seguidores encontraram a fonte da "mais potente revolução social", capaz de renovar pessoas e estruturas. São inúmeras as obras sociais a que deram origem.

Esta espiritualidade trouxe também uma nova luz aos ramos do saber, não só à teologia, mas também à filosofia, à psicologia, à sociologia, à economia, à reflexão política, etc. Chiara Lubich, que abandonara a perspectiva de seguir estudos para se consagrar a Deus, recebeu, de universidades espalhadas por todo o mundo, doutoramentos honoris causa em quase todas essas disciplinas.

Ao mundo da política propôs a fraternidade como autêntica categoria política, para dar expressão concreta a este terceiro princípio (o que tem sido mais esquecido) do tríptico da Revolução Francesa. Políticos de vários quadrantes têm acolhido esta proposta.

Ao mundo da economia propôs um modelo de economia de comunhão na liberdade, desafiando as ideias correntes de que só o móbil do egoísmo torna eficaz a economia, ou só a intervenção estatal permite introduzir na vida económica a consideração do bem comum.
A vida de Chiara Lubich transformou muitas outras vidas. Nela colheram inspiração e ensinamentos pessoas que têm em curso processos de beatificação, como o intelectual e político italiano Igino Giordani (um co-fundador do movimento) e o cardeal vietnamita Van Thuan, referido como testemunho de vida cristã na última encíclica de Bento XVI. Mas muitas pessoas comuns de todo o mundo lhe devem aquilo que dá sentido às suas vidas, aquilo que de mais precioso têm. É o que sucede também comigo, desde a minha adolescência. Daí a minha gratidão, que não posse deixar de tornar pública.

Nunca conseguiremos provar se Deus existe

16.03.2008, António Marujo, no Público

Padre dominicano, o francês Jacques Arnould trabalha desde 2001 no Centro Nacional de Estudos Espaciais. Diz que é preciso que as religiões não tenham medo da ciência mas que mantenham o espírito crítico para com o trabalho científico. E não tem dúvidas em dizer que nunca se demonstrará se Deus existe ou não. António Marujo (entrevista).

Voltar a misturar teologia e ciência seria "um erro grave", afirma o padre dominicano Jacques Arnould. Membro da Ordem dos Pregadores (frades dominicanos), Arnould, de 46 anos, foi convidado da Semana de Estudos Teológicos da Universidade Católica, onde proferiu duas conferências, sobre a teologia depois de Darwin, o criacionismo e o inteligent design. Em entrevista ao P2, falou do encontro do Papa com os antigos alunos - cujas actas estão publicadas em Criação e Evolução, ed. Univ. Católica -, visto por alguns como uma tentativa de reabilitar o criacionismo.

Trabalha no Centro Nacional de Estudos Espaciais [CNES] francês. Espera que nas viagens espaciais se encontre Deus?

Não sei se poderemos descobrir Deus nas viagens espaciais. Não sei onde está Deus. Mas os que estão empenhados na conquista espacial não afastaram Deus do seu empreendimento. Gagarin [primeiro astronauta soviético], quando regressou do seu primeiro voo e lhe perguntaram se vira Deus, respondeu: "Não, não vi." Mas há muitos outros testemunhos de astronautas e outras pessoas que não hesitaram em colocar Deus e o religioso nas actividades espaciais. Os astronautas americanos que leram a Bíblia à volta da Lua, as tripulações que são abençoadas por padres ortodoxos na Rússia...

E se um dia descobrirmos outra civilização, num planeta diferente, esses seres podem também acreditar em Deus?

Ninguém sabe. A questão não será tanto o que eles pensam, mas como reagiremos nós. Há muito tempo que nos preparamos, pela imaginação, para um tal encontro - mesmo se não sabemos se ele terá lugar, nem quando. De um ponto de vista científico, isso seria um acontecimento extraordinário.
A Igreja trabalha há muito tempo [sobre isto]. É uma velha questão filosófica e também teológica. No século XIII houve um debate em Paris, sobre se podia haver outros mundos. A resposta foi: não é a nós que compete restringir a capacidade criadora de Deus. Se ele queria criar outros mundos habitados, outros seres, quem o pode impedir?

Seria o mesmo Deus?

Do ponto de vista cristão, sim. As pessoas podem ficar decepcionadas porque querem respostas mais definitivas, mas não é a nós que compete limitar a capacidade criadora de Deus. Deixemos Deus desenvencilhar-se com esses seres, se ele quis um dia criá-los. A nós, cabe acolher a novidade e a diferença.

Criacionismo avança

Qual é o seu trabalho nas questões éticas e culturais da investigação espacial?

O CNES é uma das raras agências espaciais que instituiu um interesse pela dimensão ética. A Agência Espacial Europeia fê-lo, mas centrada no aspecto jurídico. O meu trabalho é simples: em todas as ocasiões possíveis, introduzo a questão filosófica das consequências de dada actividade: reflexão com os astronautas, protecção planetária (por exemplo, não poluir Marte quando vamos explorar o planeta).

É um preocupação ecológica de âmbito alargado?

Sim. Ao vermos a Terra a partir do espaço, isso pode permitir olhá-la de outro modo, aprender no espaço o que se pode aplicar à Terra: a maneira de considerar o planeta, o estatuto jurídico do espaço como património comum da humanidade.

Os criacionistas estão a ganhar terreno na Europa?

Sim. Estou espantado, porque a primeira vez que ouvi falar de criacionistas foi há dez anos, mas nessa altura o fenómeno estava reduzido aos Estados Unidos e ao mundo anglo-saxónico. Nestes dez anos, sob formas novas, em particular com o que se designa o design inteligente, tornou-se mais importante no meio cristão. No meio muçulmano, também há uma pressão criacionista - mesmo em países como a França ou a Bélgica.
Isto cria um problema científico, político (por causa do modo de ensinar hoje as ciências - não estivemos muito atentos à dificuldade de ensinar a evolução biológica na escola) e religioso, porque se trata de uma reivindicação religiosa.

No discurso que motivou o cancelamento da ida do Papa à Universidade La Sapienza, Ratzinger dizia que havia uma crise de fé na religião, mas também na ciência. É isso que leva ao sucesso do criacionismo?

Estamos em sociedades, pelo menos na Europa, que estão em crise de sentido, dos valores, da referência para as escolhas de sociedade. Alguns cientistas ateus reconhecem que a ciência negou os valores religiosos e filosóficos sem os substituir.
Não é o desencantamento do mundo, como alguns dizem, mas uma crise de valores.
As pessoas procuram coisas relativamente simples. Será que falhámos o ensino da evolução? Não. Mas um discurso simplista como o criacionista tem resultados.

Um erro grave

E as pessoas sentem que a ciência não pode resolver tudo?

Sim. Mas não devemos dizer que, como a ciência não fez, a religião fará. Pretender que o outro seja fraco para que nós possamos dar a solução seria um erro. Cada um - a ciência ou as religiões - deve contribuir com as suas riquezas. Mas isso precisa de um espírito de abertura e não de integrismo - nem científico nem religioso.

Afirmou que a Reforma protestante aproximou as pessoas do texto bíblico. A Reforma é culpada do criacionismo actual?

Não! O criacionismo actual é uma reacção à revolução de Darwin, através de uma leitura literal da Bíblia, sobretudo em pequenas igrejas protestantes dos Estados Unidos. Os criacionistas recorreram ao literalismo, o que conforta as suas posições. A culpa não é de Lutero, isso seria redutor. O literalismo existe também no catolicismo.
A Igreja Católica chegou a condenar o evolucionismo. O Papa esteve há ano e meio a discutir o tema e muitos pensaram que isso seria reabilitar o criacionismo.
Não é o caso, pelo menos por agora, O que diz o cardeal [Cristoph] Schonborn [de Viena] só o compromete a ele. Que alguns se tenham reconhecido nessa visão, é uma coisa. Que Bento XVI assine o que ele disse, é outra. Se fosse o caso, pessoalmente teria muita pena. Seria um grave erro misturar questões científicas e teológicas. Mas não tenho nenhuma razão para pensar que tal venha a acontecer.
O que ele dizia no artigo do New York Times, de Julho de 2005, são afirmações muito sectárias, que acusam em primeiro lugar a ciência. Eu mesmo fiquei muito chocado com o artigo. Os partidários do design inteligente não são necessariamente aliados do cristianismo.

O design inteligente é um novo criacionismo?

Não está, pelo menos, muito longe dele. E se é um pouco diferente, passa pela mesma confusão. Hoje, é necessário trabalhar uma verdadeira teologia natural. O design inteligente não é uma teologia natural, porque coloca a priori o que quer encontrar. A procura cristã é muito mais inteligente que o design inteligente.

A Igreja teve no padre Teilhard de Chardin um grande geólogo e paleontólogo, que
começou por ser condenado. Ele é uma referência para si?

O que vejo interessante nele, tanto como as ideias, é o método da sua busca, a sua atitude humana e inteligente para com a ciência. Em 50 anos, a ciência fez muitos progressos. Ele morreu em 1955, há coisas ultrapassadas. Quando acabei de escrever um livro sobre ele, dei-me conta que encontrei sobretudo um grande irmão. É comovente saber que não somos os primeiros, que não estamos sozinhos...

Teólogos e cientistas devem afrontar o criacionismo juntos?

Isso já acontece. Não é necessária propriamente uma aliança contra quem quer que seja, mas sim ter menos medo da ciência. A atitude de João Paulo II, de repetir "não tenham medo" da ciência, era emblemática: não ter medo da ciência, sem se deixar dominar por ela, ter um espírito crítico para com a ciência, não decidir o que é bom ou mau na ciência - isso pertence aos cientistas -, ser crítico do uso que dela fazemos, ter consciência de que a ciência não pode dizer tudo sobre o homem e que nós também temos algo de essencial a dizer sobre o humano, promover tudo o que permite o diálogo com a ciência.
A Academia Pontifícia das Ciências é, a esse nível, um lugar importante. É preciso promover o trabalho teológico, tendo em conta o que diz a ciência, porque a humanidade à qual me dirijo está marcada por uma dimensão científica.

A fé e o problema do mal

Referiu na sua conferência a questão da selecção natural: como é possível Deus ter criado algo que não é perfeito e acaba?

Para mim permanece um problema. Estamos em Lisboa, onde ocorreu o terramoto [de 1755], que é um objecto filosófico largamente discutido. Infelizmente não é o único, porque há muitas outras catástrofes, mesmo próximas de nós, que suscitam a pergunta: porque está este mundo marcado pelo mal físico, pelo sofrimento, pelo mal moral? A presença do mal toca-nos a todos e é insuportável.
Não tenho respostas. Há uma grande diferença entre a procura da fé e a da ciência. A ciência procura saber mais, mesmo sobre as imperfeições do mundo. A fé existe apesar da ignorância ou do medo que tenho. É isso que é humano, terrivelmente humano.
Respeito os que dizem que não podem acreditar num Deus que deixa que aconteça o terramoto de 1755 ou o tsunami de 2004 - os dois são comparáveis pelo choque que provocaram. Mas também quem, apesar disso, acredita em Deus. Bem, será preciso depois que Deus nos explique estas coisas...
A fé é isso: apesar de tudo o que nos impede de dar um passo - em primeiro lugar, da minha própria imperfeição e apesar do mal do mundo - damos esse passo.

Assegurando sempre a autonomia das ciências?

Sim. A questão colocou-se quando as autoridades religiosas quiseram intervir, como no caso Galileu, de forma caricatural: não é à Igreja que compete dizer que a Terra está no centro do Universo. Podemos interrogar-nos sobre as ideologias subjacentes a determinadas teorias científicas, porque os cientistas são homens e os seus trabalhos são orientados pelos seus a priori sobre o mundo. Autonomia, sim, mas não chega dizer que a ciência é neutra. Quando ouço que nos comités de ética não deve haver pessoas das religiões, compreendo de onde vem essa posição, mas a dimensão religiosa existe e tem lugar no debate sobre o uso das técnicas e das ciências.

Há dias, surgiu a notícia de que um grupo de cientistas ia tentar descobrir porque as pessoas acreditam em Deus. É possível?

Já houve trabalhos desse género, a tentar descobrir onde é que Deus se encontra no cérebro. O que podemos demonstrar? Quando se acredita em Deus, isso diz respeito a todo o ser humano. Não se acredita em Deus por causa de uma pequena parte do nosso cérebro, do nosso coração, das nossas entranhas. Essa é uma busca globalmente humana. Podemos medir mudanças de hormonas quando se está a rezar ou quando se medita. Mas o que demonstrámos com isso? Nada de novo. Apenas que a busca religiosa é profundamente humana. Avançou-se no conhecimento do humano, mas não se demonstrou nunca a existência ou inexistência de Deus. Nunca o conseguiremos provar.

23 Março 2008

São Paulo Inventor do universalismo, opositor do Império, defensor da igualdade radical

23.03.2008, António Marujo, no Público

Acusado de legalista, misógino, antisocial, conservador, Paulo, o primeiro grande anunciador de Cristo, foi afinal um defensor da igualdade da mulher e um estratega apurado na constituição de comunidades que, em dissensão com a cidade, nunca a abandonaram. A crítica redescobre o apóstolo dos gentios

Maltratado, mal-amado e mal conhecido mesmo entre cristãos. Paulo, o mais importante evangelizador do início do cristianismo, é ainda uma figura difícil. Visto como misógino, anti-judeu, com um pensamento inacessível, ele é, no entanto, essencial para entender a génese cristã. Foi sobretudo um opositor acérrimo e não-violento da divinização do imperador, instaurador de comunidades abertas à cidade e defensor da igualdade radical - mesmo entre homem e mulher.

Inventor do universalismo cristão, um génio. No segundo milénio do seu nascimento, o Papa Bento XVI instituiu um Ano Paulino, de Junho de 2008 a Junho de 2009.
A personalidade de Paulo, ou Saulo de Tarso, está a ser redescoberta pela investigação bíblica, arqueológica, filosófica. E o seu pensamento é revalorizado por pensadores como Alain Badiou, filósofo francês e ateu, e Giorgio Agamben, pensador italiano, também não crente. Ambos escreveram duas das mais importantes obras recentes de investigação sobre Paulo. E há judeus, como Daniel Boyarin, Jacob Taubes ou Samuel Ben-Chorin, a multiplicar estudos sobre Paulo.

Todos contrariam a imagem de legalista, misógino, antisocial, conservador. Tais ideias, diz o biblista francês Michel Quesnel (Paul et les commencements du christianisme, ed. Desclée de Brouwer, 2001) são de quem só conhece Paulo do que ouviu na infância ou na orelha distraída na missa. A redescoberta começou com a forte onda de choque provocada por Paul and Palestinian Judaism (1977), de E.P. Sanders.
Em alguns dos textos, o "apóstolo dos gentios", como é conhecido, aparenta conceber a mulher como ser secundário. Nada anormal para o tempo. Primeiro erro: as investigações recentes mostram que só sete das 13 cartas "paulinas" são autênticas, isto é, foram escritas pelo próprio. E os textos anti-femininos estão exactamente nas restantes, as deutero-paulinas.

John Dominic Crossan e Jonathan Reed (En Busca de Pablo: El Imperio de Roma y el Reino de Dios frente a frente, ed. Verbo Divino, 2006) propõem uma releitura: em 1906, numa gruta descoberta em Éfeso, uma pintura do século VI representa Paulo de Tarso e Tecla, mártir cristã que conheceu Paulo e lhe seguiu as pisadas de evangelizadora. As duas figuras em igual altura, em igual posição de ensino e autoridade. Só que, mais tarde, os olhos e a mão de Tecla foram raspados e manchados.

"A representação original e a deformada expressam um choque teológico fundamental", escrevem (biblistas, Crossan investiga o Jesus histórico, Reed é arqueólogo). A imagem em que Tecla e Paulo apareciam "com igual autoridade foi substituída por uma em que o homem é apóstolo e tem autoridade, enquanto a mulher fica cega e silenciada".

Um livro publicado há anos em Portugal pelo padre Amador dos Anjos (S. Paulo e a Condição da Mulher, ed. Salesianas, 1990) chama a atenção para problemas provocados pelas próprias traduções da Bíblia. Na Carta aos Gálatas (3, 26-28), uma das sete que a crítica textual definiu como autênticas, Paulo proclama a igualdade: "Todos vós sois filhos de Deus em Cristo Jesus; (...) Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem e mulher, porque todos sois um só em Cristo Jesus." A mesma ideia é repetida em outras cartas, como a primeira aos Coríntios, onde Paulo insiste na reciprocidade de tratamento dos cônjuges (7, 1-11) ou em que "nenhuma condição étnica ou social condiciona o acesso ao reino de Deus" (7, 17-31).

A traição chegaria pela tradução: na mesma carta (11, 3-16), fala-se sobre a ordem nas assembleias litúrgicas. Um texto "complexo e obscuro", admite o autor, porque as traduções diziam que "a mulher deve trazer sobre a cabeça o sinal da sujeição", ou seja, o véu. Deveria antes ler-se "o sinal da autoridade". Em português, as últimas edições da Nova Bíblia dos Capuchinhos já alteraram a palavra deturpada por séculos.
O autor refere duas passagens "não autênticas" de São Paulo, quando se diz que as mulheres devem estar "caladas nas assembleias" (1ª aos Coríntios 14, 34) ou que deve receber "a instrução em silêncio, com toda a submissão" (1ª a Timóteo 2, 11). Estas são, escreve, as referências mais repisadas "pelos antifeministas de ontem e de hoje, em ordem a excluir a mulher de qualquer função ligada ao ensino público e ao governo no espaço eclesial".

Frases aliás contrariadas pela prática do apóstolo, mais aberto que tais citações: na Carta aos Romanos (16, 1-6), Paulo fala de várias mulheres investidas de autoridade nas comunidades por ele formadas: a diaconisa Febe, para quem pede a assistência que ela necessitar; ou Trifena, Trifosa e Pérside "que se afadigam pelo Senhor".
Todos são iguais

Crossan e Reed concluem que "o Paulo autêntico e histórico" sustentava que nas comunidades cristãs "não fazia diferença alguma" entrar como judeu ou pagão, homem ou mulher, livre ou escravo. O verdadeiro Paulo "só dizia o que o cristianismo nunca foi capaz de seguir: que dentro dele todos são iguais e que isso há-de constituir o seu testemunho e o seu acicate para o mundo exterior".

Concordando que as questões "mais problemáticas" estão nos textos deutero-paulinos e nas traduções, o pastor protestante Dimas Almeida, que se dedica há anos à investigação sobre Paulo, acrescenta ao P2 que não se deve fazer dele "um feminista avant la lettre".

Paulo é alguém "incómodo" e "com dimensões dissonantes em relação à ortodoxia nascente", diz Dimas Almeida. De tal modo que no livro dos Actos dos Apóstolos, em que Paulo é protagonista de metade do texto, há como que uma "domesticação" da figura. O episódio da "conversão" de Paulo é "mais sóbrio" no relato que o próprio faz na Carta aos Gálatas do que nos Actos, em que a narrativa parece mais ficcionada - o que não dele levar a rejeitar os elementos "valiosos" dos Actos sobre Paulo.

O apóstolo, aliás, "não se converte a uma nova religião", diz o pastor da Igreja Presbiteriana. "A conversão, três anos depois da morte de Jesus, é ao Messias, mas dentro do judaísmo. Paulo é judeu e não deixa de o ser até morrer [c. 64-65], ainda a separação das águas entre cristãos e judeus não tinha acontecido." Mais ainda, acrescenta Michel Quesnel, na revista Recherches de Science Réligieuse (Julho 2002), "o apóstolo nunca declarou ter deixado o judaísmo".

Paulo, escrevem Crossan e Reed, tem uma estratégia: vai às sinagogas não para converter os judeus, mas para "desconverter" os pagãos aderentes do judaísmo. Estes podiam entender a sua teologia, pois estavam familiarizados com as escrituras judaicas. E foi esta caça ao converso que levou à saída de alguns dos defensores e financiadores das sinagogas e à oposição de outros judeus.

"Na sua luta para obter e agarrar os seus adoradores de Deus, Paulo ataca de maneira violenta, mas injusta - alguma vez a polémica é justa? - o judaísmo absolutamente normal dos seus adversários", escrevem. "O expresso paulino avançava com grande estrondo sobre os carris dos adoradores de Deus e Paulo movia-se depressa porque não tinha que estender a linha."

Há outras razões para o sucesso: Alfredo Teixeira, professor na Faculdade de Teologia da Universidade Católica, diz ao P2 que Paulo "aproveitou a rede viária e a rede linguística" do império para concretizar a constituição de comunidades "disseminadas, contra a tentação do gueto e da comunidade "fechada"", de que Jerusalém foi o paradigma.

Novo paradigma

"Paulo mergulha no mundo civil, escolhe os lugares religiosamente neutros e as cidades importantes do Império para lugares de irradiação." A casa cristã, outro elemento importante para o apóstolo, "vive em dissensão em relação à cidade, mas sem nunca abandonar a cidade", diz Teixeira. A casa é uma "experiência de integração dos elos mais fracos da sociedade". E, nessas comunidades, as mulheres "profetizavam e dirigiam a oração comum".

Nieztsche viu em Paulo o "verdadeiro fundador do cristianismo", mas Dimas Almeida discorda: "Paulo foi um génio religioso com uma interpretação importantíssima da pessoa de Jesus." E o seu pensamento "tem fecundado tempos históricos do cristianismo", com personalidades como Santo Agostinho, Tomás de Aquino, Lutero ou Karl Barth, "contribuindo para um novo paradigma cristão: o protestantismo".

Alain Badiou (Saint Paul - La Fondation de l"Universalisme, ed. PUF, 1997), o filósofo ateu, define Paulo como o fundador do universalismo - mesmo se admite que a expressão pode ser excessiva. Confessando ter descoberto "tarde as epístolas", Badiou diz que Paulo "é um pensador-poeta do acontecimento" que "reduz o cristianismo a um só enunciado: Jesus ressuscitou". E as diferenças - judeu e grego, homem e mulher, escravo e livre - comportam "o universal".

Para Alfredo Teixeira, Paulo vê a salvação como "literalmente ecuménica, para todo o espaço habitado" e cria uma teologia marcada "pela participação" e "cidadania". Daí as imagens que comparam a Igreja a um corpo.

O italiano Agamben, que como Badiou não é crente, discorda deste, adoptando uma perspectiva mais messiânica do apóstolo, na linha de Walter Benjamim. Diz ele (Le temps qui reste - Un commentaire de l"êpitre aux Romains, ed. Payots et Rivages, 2000) que "Paulo não é mais o fundador de uma nova religião, mas o representante mais exigente do messianismo judeu; não é mais o inventor do universal, mas aquele que ultrapassa a divisão dos povos; (...) não mais a simples crítica da Lei mas a sua abertura para o uso para além de todo o direito."

Paulo foi, enfim, um opositor intenso, mas não-violento, do Império, sustentam Cross e Reed. "Paulo opôs-se a Roma, com Cristo contra César, não porque o Império fosse particularmente injusto ou opressor, mas porque Paulo questionava a normalidade da civilização como tal, dado que a civilização foi sempre imperial, quer dizer, injusta e opressora." E dizem que, enquanto o império se baseava na paz pela vitória, o apóstolo propõe, no seguimento de Jesus, a paz mediante a justiça.

13 Março 2008

Há diversidade na Igreja sobre casamento gay e relações homoeróticas

O Globo, 10/3/2008

Novos ventos estão soprando na Igreja Católica. É bastante conhecida a tradicional oposição da hierarquia eclesiástica ao casamento gay, bem como às relações homoeróticas. No entanto, aconteceu um fato surpreendente: o novo presidente da Conferência dos Bispos da Alemanha, Robert Zollitsch, declarou-se a favor da união civil dos homossexuais. Para ele, trata-se de uma questão da própria realidade social: se há pessoas com esta orientação, o Estado deve adotar uma legislação correspondente. Todavia, Zollitsch considera um erro a idéia de ‘matrimônio homossexual’, devido à sua própria concepção matrimônio, essencialmente hétero.

À primeira vista, esta aprovação da união civil soa como uma divergência radical em relação ao papa. Afinal, a imagem de Bento 16 freqüentemente é associada a conservadorismo ou intransigência. Mas as coisas não são bem assim. De fato, o papa defende com veemência o termo ‘matrimônio’ reservado à união entre homem e mulher. Quanto à união civil homoafetiva, o papa disse que o seu reconhecimento enfraquece e desestabiliza a família fundada no matrimônio. Por isso, reconhecê-las ‘parece perigoso e contraproducente’.

Convém analisar os termos usados: ‘parece' não quer dizer necessariamente que seja; ‘perigoso' não significa abominável nem inadmissível. O fogo é perigoso. Pode produzir incêndio e morte. Mas com o devido cuidado, pode ser usado na cozinha de uma residência. Portanto, os termos do papa não são taxativos e nem encerram o debate.

Bem diferente foi o pronunciamento da Congregação para a Doutrina da Fé em 2003, assinado pelo então cardeal Ratzinger. A linguagem é bem dura: as uniões homossexuais são ‘nocivas' à sociedade, e deve haver oposição clara e incisiva ao seu reconhecimento legal, sobretudo dos políticos católicos. Isto era bem de acordo com o pensamento de João Paulo 2º, a quem a Congregação obedecia. Wojtyla considerava aquelas uniões uma grave de violação da lei de Deus e uma manifestação da astuciosa ‘ideologia do mal'.

Com isto se vê que há na Igreja uma diversidade de posições sobre o tema. E isto é compreensível. Afinal, a Igreja está alicerçada na milenar tradição judaico-cristã e, ao mesmo tempo, espalhada pelo mundo e vivendo na cultura moderna. No judaísmo antigo, acreditava-se que o homem e a mulher foram criados um para o outro, para se unirem e procriarem. O homoerotismo era considerado uma abominação. Israel deveria se distinguir das outras nações de várias maneiras, inclusive pela proibição do homoerotismo. A Igreja herdou esta visão antropológica com sua interdição. No século 19, porém, surgiu o conceito de ‘homossexualidade’, que permite pensar esta realidade de outra maneira. A atração pelo mesmo sexo pode ser entendida como um dado da natureza. No entanto, até o final do século 20 a homossexualidade era considerada pela medicina uma doença, que muitos acreditavam ter cura.

Hoje há uma nova compreensão das coisas: a humanidade não é totalmente heterossexual, e a sociedade deve aprender a conviver e a lidar com as diferenças. A Igreja de certo modo acompanha a sociedade. João Paulo 2º tinha uma posição tradicional de rejeição. Bento 16, não mais sob as ordens de seu antecessor, adota uma oposição moderada. Até porque o discurso papal tem uma repercussão mundial, em lugares e contextos muito diferentes. Por isso, ele tende a ser cauteloso na mudança. Já o bispo alemão Zollitsch, diante da realidade seu país, não vê as uniões homoafetivas como uma ameaça à família e aprova o seu reconhecimento civil. Assim se dão as mudanças na Igreja.

No Brasil, desde 1995 há um projeto de lei de união civil, da então deputada Marta Suplicy. Ele prevê que os termos ‘matrimônio' e ‘casamento' fiquem reservados às uniões hétero, em razão de suas implicações ideológicas e religiosas. Para uniões gays, usa-se ‘parceria' e ‘união civil'. São propostas bastante de acordo com o bispo do país do papa.

Luís Corrêa Lima é padre jesuíta e historiador.

05 Março 2008

Le 8 mars nouveau est arrivé

mercredi 5 mars 2008, Riposte Laique

Voilà venu le temps du 8 mars. Chaque année, en avant première du printemps, on célèbre cette date devenue rituelle. On ne sait plus bien ce qu’elle commémore, à force d’avoir été trafiquée. Elle n’est pas ce qu’on croit : le rappel d’une manifestation spontanée de femmes. On évoque comme événement fondateur la grève des ouvrières du textile à New York en 1857. Mais aucune mention de cette grève dans les sources américaines de l’époque, ni dans les histoires du mouvement ouvrier aux Etats Unis. Les recherches des féministes ont mis à jour l’origine exacte de cette commémoration. La décision de célébrer chaque année une journée internationale de la femme fut prise en 1910 lors de la 2e conférence internationale des femmes socialistes à Copenhague. La direction du parti social démocrate fixa la première journée des femmes en mars 1911. La journée des femmes ? Un produit de la volonté politique du mouvement ouvrier international. En France, le 8 mars devient officiellement journée internationale des femmes en 1982, par la volonté d’Yvette Roudy alors ministre des Droits des femmes.

Cette journée symbolique est l’occasion pour tous les medias, d’y aller de leur couplet catastrophiste sur la situation des femmes. L’air de dire « Vous voyez votre libération, ça ne marche pas. » Le reste de l’année, ils sont plutôt tentés de diriger vers la poubelle nos articles et autres prises de position. Sachez le : le silence des féministes est dû, non pas à leur disparition ou à leur abattement, mais à la propension médiatique à ne pas les publier. Mais là, le 8 mars, tous les micros, obstinèment fermés, s’ouvrent à une écoute tous azimuths des problèmes des femmes, la chiffromanie s’empare des rédactions. Une femme sur trois meurt en France tous les trois jours à la suite des coups, la différence de salaire est toujours au moins de 20%, 80% des salariés pauvres sont des femmes, 83% des emplois à temps partiel, 48000 femmes sont violées chaque année, les conditions de pratique de l’IVG difficiles, tandis que la pression sociale pour que les femmes soient mères s ‘appesantit, la prostitution se banalise, les mariages forcés se répandent…

On en rentre la tête dans les épaules, sous l’avalanche. D’autant que tout ceci est vrai. Une véritable régression est à l’œuvre, elle touche les maillons les plus faibles de la chaîne sociale, elle tente de leur reprendre ce qu’ils/ elles ont arraché. Mais encore ? Qui dit régression, se situe relativement à un temps où les choses avançaient. Quel temps ? Là , on est dans le plus grand flou. Pour la majorité, c’est un « avant » mythique et non repéré, le fameux « bon vieux temps ». Dans nos milieux, la référence est plus précise : c’est 68 et le grand chambardement social qui a suivi. en rupture nette avec les années précédentes.

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Eh bien, justement, il faut recourir au travelling arrière pour bien évaluer une situation présente. Ce qu’on nous met sous le nez chaque 8 mars, c’est un instantané en noir et blanc. On évite soigneusement l’autre face, couleur, du paysage. La réalité, elle, est en cinémascope, tout en mouvement et en contrastes. Quand on se retourne sur les années d’avant 68, on se souvient d’une France où c’est pas la joie d’être une femme. Certains ont encore en mémoire le célèbre éditorial prémonitoire de Viansson Ponté dans « le Monde », à la veille de mai 68 « La France s’ennuie ».

Pour les femmes, pas le choix, c’est mariage, marmots, maison, et résignation devant une vie sans perspectives. Et sinon, fille facile, fille mère, marge et solitude. Question boulot, à part ouvrière, secrétaire, ou instit/ prof, pas de perspectives de carrière. On avorte dans la boucherie et le silence, on est battue autant qu’en 2008, mais on la boucle parce qu’on a honte, on est larguée avec les gosses qu’on n’a pas pu choisir. Le clandestin fait la loi.

Il y a une différence de taille avec aujourd’hui. Elle est dûe à deux facteurs : la levée du silence et les effets de la libération des moeurs. La première : tous les aspects de l’oppression des femmes, jusqu’alors mis au placard du privé, ont été sortis sur la place publique. Y a t il plus de viols ou y a t il plus de plaintes de viol ? Et y aurait il plus de viols parce que la libération sexuelle a levé pour les individus fragiles et frustes, les interdits ? Idem pour les violences conjugales. Faute d’études comparatives, on n’en sait rien.

La deuxième différence avec avant : On est passé brutalement d’une société figée, où la répression sexuelle avait créé des freins et des refoulements, à une société permissive, où les mentalités brimées n’ont pas eu le temps de changer en profondeur. On a plaqué de la libération sur un fonds inchangé de refoulement. « Tous libérés, à mon commandement ! » Cela génère du désarroi, de la violence et la valse hésitation entre les comportements anciens, et les tentatives pour s’en extraire.

Nous sommes dans un passage. Si on veut comprendre quelque chose à ce qui se passe, et ne pas s’obséder sur la régression ambiante, il faut lever le nez de son strict présent. C’est ainsi qu’on mesure d’où on vient, et les chances qu’on a d’aller plus loin. L’héritage le plus spectaculaire de mai 68 est la formidable avancée de la condition des femmes. Elle a plus progressé en quarante ans qu’en quarante siècles. Il faut être inconscient pour croire qu’on va rattraper ce retard millénaire en quelques décennies. La société patriarcale, bousculée dans ses profondeurs, freine des quatre fers, reprend ce qu’on a essayé de lui arracher. Nous sommes dans l’inévitable période de creux qui succède dans l’Histoire aux phases de progrès.

Alors, en ce 8 mars, voici quelques petites nouvelles réconfortantes, glanées de ci de là, dans le monde. Chez les Masaï, en Tanzanie, un nouveau rite remplace l’excision pour les jeunes filles : une légère excision sur les cuisses. Les saoudiennes ont désormais le droit de réserver une chambre dans un hôtel sans être accompagnées d’un homme.

En France, il y a pour la première fois autant de femmes que d’hommes promues aux plus hauts grades de la Légion d’honneur, cet insigne éminemment machiste inventé par Napoléon. Voilà qui reconnaît la contribution des femmes à la vie économique, politique et culturelle de la nation. Les guides de haute montagne, bastion masculin, ont élu une femme à la présidence de leur Syndicat. Et pour finir, Rama Yade a déclaré que la France devait offrir sa protection à Taslima Nasreen et Ayaan Hirsi Ali. Serait ce un début vers l’élargissement du statut de réfugiée politique aux femmes victimes de persécutions spécifiques ? La Ligue du droit des femmes le réclame ce depuis 1980. Il suffit qu’un pays membre de l’ONU en fasse la demande…

De petits pas qui vont dans la même direction : l’inclusion, à part entière, des femmes dans le monde. La marche vers la reconnaissance est toujours longue.

02 Março 2008

Padres dominicanos holandeses põem católicos a discutir em Lisboa quem pode celebrar a missa e o fim do celibato

01.03.2008, António Marujo (Público)

Grupo português retoma documento de dominicanos holandeses que está a provocar ondas de polémica

Aqueles que presidem a celebrações da missa em cada local "devem ser membros inspirados da comunidade em questão". E para o caso "é irrelevante serem homens ou mulheres, homo ou heterossexuais, casados ou não. O que é essencial é se a sua atitude de fé é ou não inspiradora e estimulante."

Esta é uma das proposições de um documento dos padres dominicanos holandeses que esta tarde será debatido, a partir das 14h30, no Convento de São Domingos de Lisboa (Dominicanos, na zona do Estádio da Luz). O debate é promovido pelo movimento internacional Nós Somos Igreja (NSI)-Portugal.
"O documento é profético e o facto de provocar tantas ondas é porque toca num ponto sensível da comunidade dos crentes", diz ao PÚBLICO Ana Vicente, do NSI. "Ele pretende que haja mais participação dos crentes na comunhão da Igreja, menos hierarquia e menos exclusão."
O texto foi redigido por três membros da Ordem dos Pregadores, na sequência de uma recomendação do capítulo (assembleia) dos dominicanos da Holanda. Depois disso, foi assumido pelo provincial (responsável máximo) da ordem no país. O Vaticano pediu a intervenção do mestre geral da ordem, o argentino Carlos Azpiroz Costa, que já defendeu que o fim do celibato obrigatório depende apenas da mudança da regra disciplinar e que as mulheres devem poder ter um papel mais visível do que hoje.
Carlos Azpiroz encarregou outro teólogo dominicano, o francês Hervé Legrand, de comentar o documento dos colegas holandeses. Legrand arrasou a sustentação doutrinal e teológica do texto, mas deixou de lado a questão do celibato obrigatório, dando a entender ser favorável ao fim dessa regra.

Questão de poder

A polémica instalou-se no catolicismo holandês e na ordem dominicana. Além de propor a celebração da missa por pessoas escolhidas pela comunidade, o texto sugere uma espécie de revolta das "bases" católicas: é preciso que os fiéis tenham a "liberdade necessária, teologicamente justificada, para escolher o seu líder ou equipa de líderes a partir do seu seio", escrevem.
Intitulado A Igreja e o Ministério, o documento acaba, no entanto, por se centrar na questão de quem pode ou não celebrar a eucaristia. Questão que o próprio Legrand não deixa passar ao lado. "Hoje, os debates concentram-se na questão do poder", acusa.
Os dominicanos holandeses citam várias "ambiguidades" da situação actual: quando não há padres, as comunidades fazem uma "celebração da Palavra e da Comunhão", idêntica à missa, mas sem a consagração das hóstias. Estas celebrações podem ser presididas mesmo por mulheres e muitos fiéis não vêem a diferença em relação à missa verdadeira, dizem. E recordam o que se passou ao longo da história: nem sempre dominou o modelo de uma hierarquia que manda.
Hervé Legrand critica as "fraquezas" do texto em afirmações concretas, a "falta real de espírito crítico", limitando-se a opor hierarquia e bases como dois blocos unívocos e opostos. Dá razão aos colegas, admitindo que não se retiraram ainda todas as consequências da doutrina do Concílio Vaticano II para a atitude da Igreja neste campo, mas diz que algumas afirmações do documento são de natureza "cismática" em relação à doutrina católica de séculos.
Ambos os documentos estão disponíveis, na íntegra, no sítio do NSI-Portugal na internet (www.we-are-church.org/pt/).

A polémica sobre o celibato opcional e a possibilidade de a Igreja Católica alargar o leque de ministérios tem sido debatida em diferentes lugares. Na semana passada, uma assembleia anual do clero brasileiro sugeriu a criação de alternativas à disciplina do celibato obrigatório e à situação dos casais separados, e ainda a eleição de bispos por processos mais democráticos.
Um total de 430 delegados dos 18.685 padres das 269 dioceses católicas do Brasil participou no XII Encontro Nacional de Presbíteros. E nas conclusões, citadas em www.periodistadigital.com/religion/, defendiam que o celibato deveria continuar a ser uma opção nas ordens religiosas, mas que o "ministério ordenado" de padre deveria consagrar outras formas além do celibato obrigatório.
Na Alemanha, foi o novo presidente da Conferência Episcopal (católica) Alemã a afirmar que o celibato dos padres não é teologicamente necessário. Acabado de ser eleito para o cargo, Robert Zollitsch, arcebispo de Friburgo, disse ao Der Spiegel: "Claro que a relação entre o sacerdócio e o celibato não é teologicamente necessária."
O serviço de imprensa do Conselho Mundial de Igrejas cita o porta-voz do arcebispo que afirmou depois ter havido truncagem das palavras de Zollitsch. "Quem tenha lido toda a entrevista com o arcebispo, perceberá que ele não estava a fazer do celibato um problema ou procurando aboli-lo", disse Michael Maas.
No Brasil, os padres que participaram na assembleia pediram também que o Vaticano desse "orientações mais seguras e definidas sobre o acompanhamento pastoral para os casais" de católicos divorciados que se voltaram a casar. A Igreja continua a recusar a possibilidade de um segundo casamento, bem como a hipótese de essas pessoas comungarem na missa. A.M.

25 Fevereiro 2008

Los curas brasileños piden al Papa la revisión del celibato

El País

El Encuentro Nacional de Sacerdotes reclama al Vaticano que los casados puedan ser ordenados

JUAN ARIAS - Río de Janeiro - 21/02/2008

Los sacerdotes brasileños se han dirigido oficialmente al Papa Benedicto XVI, para pedirle una revisión de la ley canónica que obliga a abrazar el celibato a quién desee ejercer las funciones presbiteriales. La decisión aparece en el documento final del 12º Encuentro Nacional de Sacerdotes, que se clausuró el martes en el Monasterio de Itaici, en el municipio de Indaiatuba (Estado de São Paulo).

La petición de los sacerdotes brasileños será enviada a la Sagrada Congregación del Clero, presidida en este momento, precisamente, por el cardenal brasileño Cláudio Hummes, ex arzobispo de São Paulo y que fue uno de los papables durante el cónclave en el que fue elegido el cardenal alemán Joseph Ratzinger como nuevo sucesor de Pedro.

En el documento enviado a Roma se pide que existan dos tipos de sacerdocio: el celibatario, que podria ser obligatorio para los religiosos que hacen votos de castidad en sus respectivas órdenes y congregaciones religiosas, y el sacerdocio sin la obligación del celibato. Piden, concretamente, que los obispos puedan ordenar a casados que consideren dignos del sacerdocio, al mismo tiempo que puedan ser reintegrados al ejercicio del sacerdocio aquellos que lo habian abandonado para formar una familia.

Según explicó a EL PAÍS un obispo que pidió que no fuera revelado su nombre, en Brasil ya hace tiempo que se ordena sacerdotes a laicos casados. ?Roma lo sabe, pero exige que no se haga público?, señaló el obispo. Así como se permite tener la eucaristia en casas particulares allí donde no llegan sacerdotes para que los fieles puedan comulgar en circunstancias especiales.

Más democracia

Por otra parte, los sacerdotes reclaman al Papa que cambie el modo del nombramiento de los obispos para que sea más democrático. Hoy, los obispos son nombrados por el Vaticano tras la presentación en secreto de una terna elaborada en la Nunciatura Apostólica, sin la participación de los fieles ni de los sacerdotes.

Los sacerdotes brasileños piden tambien en su documento que el Vaticano permita a los que tras haberse divorciado han rehecho una nueva familia que reciban normalmente los sacramentos de la Iglesia, algo que hoy les está prohibido. En realidad, en Brasil ?donde hay 18.685 sacerdotes en las 9.222 parroquias de 269 diócesis del país?, el clero es muy liberal con estos divorciados y raramente les niegan la comunión si ellos la solicitan.

Por último, los sacerdotes brasileños se exigen a sí mismos ?salir más de las parroquias para ir al encuentro de los fieles?, y abogan por que las parroquias sean menos burocráticas y más abiertas a la sociedad. La religión católica está perdiendo en este país un promedio anual de un millón de fieles, que se pasan a las iglesias evangélicas, menos burocratizadas y que atraen, sobre todo, a los más pobres y menos escolarizados.

23 Fevereiro 2008

Padres [brasileiros] sugerem o fim do celibato

Estado de S Paulo

Brasileiros levarão ao papa documento sobre alternativas para a vida religiosa e tolerância com segundo casamento

José Maria Mayrink, INDAIATUBA

O documento final do 12º Encontro Nacional de Presbíteros, encerrado ontem no Mosteiro de Itaici, município de Indaiatuba (SP), propõe ao Vaticano a busca de alternativas para o celibato sacerdotal - o que significaria a ordenação de homens casados e a readmissão de padres que deixaram suas funções para se casar.

Aprovado por 430 delegados que representavam os 18.685 padres das 269 dioceses brasileiras, onde trabalham em 9.222 paróquias, o pedido será enviado à Sagrada Congregação para o Clero, em Roma, atualmente presidida pelo cardeal d. Cláudio Hummes, ex-arcebispo de São Paulo.

Os padres pedirão também à Santa Sé “orientações mais seguras e definidas sobre o acompanhamento pastoral de casais de segunda união”, os católicos que se divorciaram e tornaram a se casar. Unidos pelo casamento civil, esses fiéis podem participar da vida da Igreja, mas não podem se confessar nem comungar.

As duas reivindicações contrariam normas em vigor na Igreja que, conforme d. Cláudio afirmou no plenário do Encontro de Itaici, a Igreja não tem a intenção de alterar. Os padres não sugerem a abolição total do celibato, que continuaria sendo uma opção, por exemplo, nas ordens e congregações religiosas, mas que haja outras “formas de ministério ordenado”.

A Igreja restabeleceu o diaconato permanente, que é exercido por homens casados. Os diáconos podem pregar nos templos e administrar sacramentos, embora não todos. Batizam, dão a unção dos enfermos e fazem casamentos, mas não celebram a missa nem ouvem confissões, privilégios exclusivos dos sacerdotes.

Outra reivindicação ousada do documento aprovado pelo Encontro de Presbíteros refere-se à nomeação de bispos. Proposta a ser encaminhada à Congregação para os Bispos pedirá uma revisão das nomeações “dentro de um espírito mais transparente, democrático e participativo junto dos presbitérios, dioceses e regionais da CNBB” (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil).

A escolha dos bispos, que são nomeados pelo papa, é feita sob sigilo pelo núncio apostólico, representante diplomático da Santa Sé. Ele envia a Roma uma lista tríplice, depois de consultar os titulares de dioceses da região em que o escolhido vai servir. Os padres querem ser ouvidos nesse processo.

Dentro do espírito da 5ª Conferência do Episcopado da América Latina e do Caribe, que se reuniu no ano passado em Aparecida para discutir o tema Discípulos e Missionários de Jesus Cristo, os padres chegaram à conclusão, em Itaici, de que precisam sair das paróquias para ir ao encontro dos fiéis, a começar pelos católicos que abandonaram a prática religiosa. As paróquias, dizem os padres, devem renovar sua estrutura para ser menos burocráticas.

SANTOS BRASILEIROS

O documento reivindica ainda que a Congregação para a Causa dos Santos encaminhe “os processos de beatificação e de canonização de padres e bispos brasileiros que seriam de grande estímulo para a vida e o ministério presbiteral”. Entre outros candidatos a santo, o texto cita Padre Cícero Romão Batista, d. Hélder Câmara e d. Luciano Mendes de Almeida.

O novo presidente da Comissão Nacional dos Presbíteros, padre Francisco (Chico) dos Santos, eleito em Itaci para um mandato de quatro anos, sugere uma redistribuição de padres entre as dioceses para atender as comunidades onde eles estão faltando. Ordenado há 32 anos, padre Chico é pároco em Muzambinho, no sul de Minas.

15 Janeiro 2008

Jesus e as mulheres: a resposta dos Evangelhos Canónicos

Fonte Eccelsia, 2006-04-06 21:57:34

Jesus teve discípulas, que o acompanharam ao longo da sua vida pública e assumiram um papel de serviço (diakonia) junto dele e dos 12. Esta é uma das evidências que, à luz dos Evangelhos Canónicos (Marcos, Mateus, Lucas e João), foi ontem destacada pelo Pe. Joaquim Carreira das Neves na UCP.

A Agência ECCLESIA acompanhou a terceira sessão do seminário internacional “O «Jesus Histórico». Perspectivas sobre a investigação recente”, desta vez dedicada ao tema das mulheres nos Evangelhos canónicos e gnósticos. A leitura de Lc 8, 2-3 revela, por exemplo, que aos 12 Apóstolos se tinham juntado “algumas mulheres, que tinham sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demónios; Joana, mulher de Cuza, administrador de Herodes; Susana e muitas outras, que os serviam com os seus bens”.
Para Joaquim Carreira das Neves é evidente que “havia um número de mulheres que seguiam Jesus e o serviam, como outros discípulos homens”. Isso, contudo, não quer dizer que o fizessem “à maneira dos 12”, sendo, assim, discípulas e diaconisas (servidoras) em sentido lato.
Estas mulheres foram mais sensíveis, em determinadas situações, ao anúncio do Reino de Deus por Jesus Cristo. A sua fidelidade levou-as mesmo a procurar dar a Jesus um enterro condigno, o que as tornaria testemunhas da ressusrreição (Lc 24, 10 refere-se a Maria de Magdala, Joana e Maria, mãe de Tiago, bem como a “outras mulheres que estavam com elas”) e personagens importantes nas primeiras comunidades cristãs.
O exegeta português lembrou que, no seu tempo, Jesus foi uma pessoa “diferente” na sua relação com as instituições judaicas, com as mulheres e com os “Códigos familiares” que colocavam as mulheres numa posição de subalternidade. mbora os Evangelhos Sinópticos não façam nenhuma referência ao termo discípulas, é plausível que as mulheres estivessem incluídas nos grupos de “discípulos” que muitas vezes são referidos.
O Pe. Carreira das Neves frisou que, entre esses discípulos/as e o grupo dos 12 Apóstolos, há uma diferença substancial no que diz respeito ao chamamento, sendo admissível que na Ceia Pascal – um momento fundamental para a questão do ministério ordenado na Igreja – pudessem estar apenas aqueles que Jesus chamou e não aqueles por quem se deixou acompanhar na sua subida para Jerusalém, a fim de celebrar a Páscoa.
Nesse sentido, o exegeta recusou tirar quaisquer conclusões sobre o que deve ser o futuro da Igreja no que diz respeito à possibilidade de admitir mulheres ao ministério sacerdotal, admitindo, contudo, que é preciso “repensar” o sistema e “recolocar a mulher no lugar que lhe compete, apresentando o verdadeiro desígnio de Deus a partir da história da Criação (Gn 1,26)”.
A ordenação de mulheres, disse, “é uma questão da Igreja, não do Jesus da história”.

A revolução dos Gnósticos
A sessão contou com uma abordagem à figura das mulheres nos chamados “evangelhos gnósticos”, particularmente divulgados a partir do sucesso da obra “O Código da Vinci” de Dan Brown. Para Joaquim Carreira das Neves, estas são “histórias alternativas” que é preciso conhecer e compreender, para evitar “respostas hipotéticas de má-fé”, como a que Dan Brown oferece, nas palavras de Umberto Eco.
Estes textos, lembrou, não anteriores aos Canónicos (c. 70-90) e demonstram a filosofia gnóstica, que defendia a androginia e desprezava a carne, para que pudesse ressurgir “a faulha divina” anterior à separação entre homem e mulher.
O Pe. Carreira das Neves citou um “logion” do já conhecido evangelho gnóstico de Tomé, no qual se afirma que “as mulheres não são dignas da vida” para mostrar quais as convicções destes escritos a respeito das mulheres – que se teriam de “transformar” em homens para poderem ser iniciados aos segredos do verdadeiro conhecimento (veja-se o final do referido logion 114 - “Jesus disse: ‘Eu mesmo vou guiá-la, para torná-la homem, para que ela também possa tornar-se um espírito vivo semelhante a vós, homens. Porque toda a mulher que se tornar homem entrará no Reino do Céu"). Os gnósticos desprezavam ainda o casamento e tudo o que relacionava com a sexualidade.
A importância atribuída a Maria Madalena nasce, assim, mais do confronto com a “Igreja de Pedro” do que por alguma relação especial com Jesus, dado que os gnósticos “metamorfosearam” estas figuras.
Os Evangelhos canónicos, historicamente mais próximos dos acontecimentos da vida de Jesus, fazem referência à presença de Madalena no momento da crucifixão e como testemunha da ressurreição. Os gnósticos, partindo da proeminência de que ela goza nos Evangelhos, como discípula, filtram pessoas e acontecimentos à luz de uma filosofia religiosa que, em muitos pontos importantes, difere do Cristianismo do Novo Testamento.